Uma casa, três mulheres: as diferentes faces femininas diante do mesmo horror
Em American Horror Story: Murder House, somos apresentados à um horror que se manifesta de formas completamente catastróficas, através de mortes, traumas, segredos e reviravoltas que juntos transformam a casa em um espaço onde passado e presente parecem coexistir constantemente. No entanto, para além dos acontecimentos que movimentam a narrativa, o modo como a temporada constrói suas personagens femininas é algo particularmente interessante. As mulheres estão em um mesmo universo, submetidas aos mesmos acontecimentos sobrenaturais, porém ocupam posições distintas e desenvolvem maneiras completamente diferentes de lidar com o horror.
Ryan Murphy e Brad Falchuk, principais roteiristas da temporada, não utilizam essas personagens apenas como elementos que movimentam o enredo, mas sim como histórias que possuem funções próprias dentro da narrativa e que, juntas, ampliam a maneira como a trama pode ser compreendida. Ou seja, embora compartilhem o mesmo espaço e sejam atravessadas por tragédias semelhantes, cada uma estabelece uma relação particular com a casa, com o passado e com aquilo que não consegue deixar para trás - e são nessas diferenças de perspectiva que o espectador passa a enxergar a Murder House por outros ângulos.
Violet Harmon é um dos principais exemplos disso. Desde o primeiro episódio, nos deparamos com uma adolescente de personalidade sombria, que enfrenta seus próprios conflitos e não demonstra medo diante daquilo que encontra na casa. Pelo contrário: inicialmente, parece querer apenas se afastar daquele lugar e, de certa forma, da própria família, que já chega à nova casa carregando seus próprios problemas.
E existe uma contradição interessante nisso: quanto mais Violet tenta se afastar da casa, mais ela é consumida por seus mistérios e horrores. O lugar que deveria representar uma mudança e uma tentativa de recomeço se transforma justamente naquilo do qual ela não consegue escapar. Aos poucos, a casa deixa de ser apenas o cenário onde sua história acontece e passa a interferir diretamente nela, até que enfim acaba por aprisiona-la para sempre.
Através dessa jovem rebelde, mas também sensível, testemunhamos os acontecimentos por uma perspectiva muito mais próxima da descoberta. Violet ainda está tentando entender aquela nova realidade, e o expectador a descobre junto com ela. Suas experiências e relações com o ambiente e demais personagens fazem com que a Murder House pareça, em determinados momentos, tão confusa para nós quanto é para ela. Seu olhar nos coloca diante de um horror que ainda está sendo descoberto — e que por isso parece impossível de se compreender completamente.
É quase o completo oposto do que se encontra nas cenas em que Constance é o centro da narrativa. Desde suas primeiras aparições, a personagem constrói uma imagem marcada pela hostilidade e pela repulsa, reforçada pela atuação de Jessica Lange, que transforma a vizinha dos Harmon em uma presença tão desconfortável quanto imprevisível. Seus gestos, falas e relações com aqueles ao seu redor deixam evidente que existe algo perturbador por trás daquela figura aparentemente familiar.
Ainda assim, a perversidade de Constance não é apresentada de maneira superficial. O roteiro molda cuidadosamente sua capacidade de manipular e interferir na vida das pessoas ao seu redor, fazendo com que suas ações raramente pareçam acontecer sem propósito. Ela busca controlar pessoas, situações e até acontecimentos que já não podem mais ser controlados. Dessa forma, sua presença não serve apenas para acrescentar mais uma fonte de conflito à narrativa: Constance transforma as relações ao seu redor em uma extensão de sua própria necessidade de controle.
E é justamente aí que a personagem ganha novas camadas. Seus comportamentos mais cruéis não surgem apenas de uma necessidade de fazer mal aos outros, mas também de uma tentativa desesperada de recuperar algum controle sobre a própria vida. Constance passou grande parte de sua existência enfrentando calamidades e convivendo com consequências que não podia impedir. Diante disso, controlar os outros se torna uma maneira de não voltar a ser completamente impotente, fazendo-a encontrar em Murder House um lugar onde ela ainda acredita poder permanecer no controle.
Como último exemplo, mas não menos intrigante, a primeira temporada nos apresenta duas versões da realidade a partir de uma senhora que trabalha como faxineira da casa... ou uma meretriz. Isso porque a aparência de Moira depende de quem está olhando para ela. E essa escolha não funciona apenas como um recurso sobrenatural, também representando a maneira como Moira foi julgada durante a própria vida baseado no que os outros enxergavam dela, enquanto aquilo que existia por trás dessa aparência era ignorado. Na morte, essa mesma lógica permanece: para alguns, ela é uma mulher idosa e inofensiva; para outros, uma jovem sensual e disponível. Nenhuma dessas imagens, porém, representa completamente quem ela é.
É por isso que sua relação com a casa se torna tão diferente das demais. Moira não está simplesmente tentando escapar daquele lugar. Ela quer ser compreendida e, principalmente, libertar-se daquilo que a mantém presa a ele. Sua história é marcada pela tentativa de recuperar uma identidade que foi distorcida pelo olhar dos outros.
Enquanto Violet nos mostra o horror através da descoberta e Constance através da necessidade de controle, Moira nos mostra a angústia de ser privada de uma identidade própria. Assim, nesse universo de caos cuidadosamente construído, onde fantasmas de mortos interagem livremente com o mundo dos vivos, é a presença dessas diferentes perspectivas femininas que acrescenta uma das camadas mais interessantes à temporada. Murder House não é apenas um lugar onde histórias de terror acontecem, mas também um espaço capaz de assumir significados diferentes dependendo de quem está diante dele. Não é à toa que grande parte dos acontecimentos seja revelada através do olhar dessas mulheres, para sempre presas à Murder House.

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