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UMA ÚNICA CASA ASSOMBRADA POR TANTOS FANTASMAS DA MESMA HISTÓRIA

Foto do escritor: Ceci MM
Ceci MM
24 de set.
4 min de leitura

Alguma vez você já teve a sensação de que viu alguma coisa, mas não sabia exatamente o que estava vendo até que um acontecimento mais à frente mostrasse como enxergá-la? É exatamente esse efeito que Murder House, a primeira temporada de American Horror Story, consegue construir ao longo de sua narrativa.

Lançada em outubro de 2011, Murder House permanece como uma das temporadas mais marcantes da série, resultado de uma construção narrativa conduzida principalmente por Ryan Murphy e Brad Falchuk. Desde os primeiros episódios ela apresenta uma história que parece se encaminhar para um grande plot twist, mas que, na verdade, faz algo ainda mais elaborado: ressignifica quase tudo aquilo que já foi apresentado ao expectador.

Cenas que inicialmente parecem não ter propósito, acontecimentos que acreditávamos compreender e personagens que julgávamos conhecer passam a adquirir novos significados conforme a narrativa avança. A cada episódio, uma nova informação parece reorganizar aquilo que já havíamos visto, fazendo com que o espectador questione se determinada situação realmente era o que parecia ser ou se o verdadeiro sentido ainda estava escondido.

Essa construção é um dos elementos que tornam a primeira temporada tão particular. A atuação do elenco, especialmente a de Evan Peters como Tate e as diferentes camadas apresentadas ao longo de seu arco, contribui para isso, assim como os elementos visuais e a atmosfera cuidadosamente construídos. Entretanto, um dos grandes diferenciais de Murder House está na maneira como seu roteiro brinca com a percepção do espectador e transforma a própria história conforme novas informações são reveladas.

Um exemplo muito claro disso é a maneira como a série utiliza informações posteriores para alterar retroativamente a interpretação dos acontecimentos. Em alguns casos, não é apenas uma cena que muda: um conjunto delas, ou até mesmo todo o arco de um personagem, passa a ser observado sob outra perspectiva. Essa estratégia aparece, entre muitos outros, no episódio 10, intitulado Smoldering Children. Ao longo da temporada, Larry Harvey, ex proprietário da casa, conta uma versão de sua história na qual tenta se apresentar como alguém que sofreu grandes perdas e que, apesar de suas ações questionáveis, carregava uma história de dor. Porém, a revelação sobre o incêndio muda completamente essa percepção. A verdade era que Lorraine, sua esposa, descobriu que Larry planejava se divorciar para ficar com Constance Langdon, a vizinha, e, em resposta, trancou-se no quarto com as filhas e ateou fogo em si mesma e nas meninas. A partir dessa informação, a história contada anteriormente por Larry passa a ser vista de um modo completamente diferente, onde o personagem que parecia carregar apenas a marca de uma tragédia passa a ser associado diretamente às circunstâncias odiosas que levaram à morte de sua família.

Mas uma cena não precisa necessariamente ganhar um novo significado apenas através de um passado revelado. Em Murder House, uma situação que parecia ter uma explicação também pode ser reinterpretada quando uma nova informação é fornecida. Chad e Patrick são uma boa demonstração disso.

Inicialmente, os dois aparecem para os Harmon como antigos proprietários da casa, aparentemente vivos, dando conselhos sobre a residência e ajudando com a decoração para o Halloween. Mais tarde, porém, descobrimos que ambos nem sequer estão vivos... porque foram assassinados pelo misterioso Homem de Borracha. A partir dessa revelação, a presença dos dois na vida dos novos moradores ganha outro sentido. Eles não estavam tentando ajudar os Harmon, mas sim simular uma reaproximação para roubar os bebês gêmeos que Vivien estava gerando, já que Chad desejava desesperadamente ter um filho e formar a "família perfeita" que eles não conseguiram ter em vida.

O Homem de Borracha, aliás, representa outro nível dessa construção narrativa. Sua presença funciona como um mistério dentro da própria história, mas permanece completamente conectada ao arco principal da família Harmon. Durante boa parte da temporada, a pergunta sobre quem está por trás daquela roupa sustenta uma inquietação constante e de uma forma extremamente bem construída, de modo que a série consegue prolongar esse mistério - sem fazer com que ele pareça deslocado da trama - até um dos últimos episódios, quando a identidade é finalmente revelada. Assim, aquilo que inicialmente parecia mais um dos muitos elementos perturbadores da casa passa a fazer parte de uma construção narrativa muito maior.

Além disso, em outros momentos, AHS apresenta situações que parecem existir apenas para criar uma atmosfera de terror sobrenatural, mas que posteriormente revelam possuir uma função importante na narrativa. O “bebe monstro” do porão é uma comprovação disso.

A criatura que inicialmente parece existir apenas para provocar medo acaba se tornando uma peça importante do passado da casa quando descobrimos a história de Thaddeus, também conhecido como Infantata. Nascido em 1922, ele era filho de Charles e Nora Montgomery. Porém, sua história estava longe de terminar com uma morte simples. Thaddeus foi sequestrado e morto por um estudante de medicina que buscava vingança contra Charles, responsável por realizar abortos clandestinos no local. Devastada pela perda, Nora costurou novamente os pedaços do filho em um ritual macabro que, combinado à energia da casa, o trouxe de volta à vida como uma criatura deformada.

O Infantata permaneceu escondido durante décadas no porão escuro da casa, continuando mesmo após o fim do último episódio como uma lembrança mal resolvida da série, ficando para assombrar a família harmon e os demais moradores que ousam cruzar o porão da casa.

E esses são apenas alguns dos exemplos menos perturbadores – dentro do contexto de AHS -que rodeiam a trama cuidadosamente construída de Murder House. O que inicialmente parece ser mais uma história sobre uma família que se muda para uma casa mal-assombrada se transforma em uma narrativa muito mais complexa, na qual a casa não é o fim da história, e sim o meio pelo qual todas essas histórias conseguem se conectar.

É justamente essa capacidade de entrelaçar diferentes acontecimentos, personagens e períodos de tempo que torna a primeira temporada tão particular. Histórias aparentemente independentes acabam encontrando a trama principal de um jeito tão único que, quando colocadas lado a lado, passam a fazer ainda mais sentido. O espectador não recebe apenas novas informações: recebe novas maneiras de interpretar aquilo que já viu.

Afinal, quantas das primeiras impressões construídas em Murder House permanecem realmente iguais até o final da temporada?

 
 
 

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