A IDENTIDADE DAS ENTIDADES
Se assistirmos a vários filmes de terror em sequência, em um primeiro momento podemos ter a impressão de que todas as entidades são iguais, seguindo um mesmo padrão de aparições aleatórias e imprevisíveis. Mas nenhuma entidade é realmente aleatória. Se observarmos com mais atenção, percebemos que cada entidade, quando bem trabalhada, carrega uma personalidade tão única e intrínseca à sua existência naquele universo que é quase como se realmente apresentasse uma identidade própria.
Mas o que exatamente significa uma entidade ser “bem trabalhada” no cinema? Mais importante ainda, como o cinema faz isso? Quais são os gatilhos e as regras que fazem tal entidade seguir determinados padrões e, assim, permitirem que identifiquemos suas características e personalidade? Nesse artigo, iremos explorar essas questões ao analisar três entidades muito famosas no universo dos filmes de terror e ainda assim completamente diferentes entre si.
Valak
Antes: como o filme prepara o espectador
Famosa como uma das principais antagonistas do universo de Invocação do Mal e protagonista de A Freira, Valak é apresentada como uma entidade demoníaca que assume a forma profana de uma freira. A escolha não é apenas visual: ao utilizar a imagem de uma figura religiosa dentro de um convento católico, o filme transforma elementos associados à proteção e à fé em fontes de ameaça. O próprio convento, que deveria ser um lugar de oração e paz, é apresentado como um espaço sombrio e silencioso, com iluminação reduzida a velas e sombras profundas. O silêncio é constantemente interrompido por portas, vento, passos e ruídos cuja origem nem sempre pode ser identificada, estabelecendo uma regra visual e sonora que cria uma sensação de desconfiança: o primeiro indício de que algo não está certo — e de que logo vem o jumpscare.
Essa sensação é reforçada pelo próprio cenário. A abadia, antiga, isolada e repleta de corredores, portas, estátuas e espaços escuros, transforma qualquer lugar aparentemente vazio em uma possível ameaça. Os símbolos religiosos espalhados pelo ambiente também ganham outra função, já que crucifixos, imagens e elementos associados à fé passam a antecipar a relação entre Valak e o universo religioso. Enquanto isso, as reações dos personagens, especialmente da Irmã Irene e de French, funcionam como uma confirmação para o espectador de que aqueles sinais não são apenas características do lugar. Quando eles demonstram medo ou percebem que há algo errado, o público passa a observar os acontecimentos espelhando essa desconfiança, procurando por uma presença que ainda não foi revelada. Dessa forma, Valak é construída primeiro como uma possibilidade dentro do ambiente.
Durante: como a entidade confirma os sinais
Quando Valak finalmente aparece, a direção aproveita a pouca iluminação e os espaços escuros da abadia, permitindo que ela seja percebida dentro da composição, em vez de simplesmente colocá-la no centro do quadro. Sua presença se confunde com o próprio cenário, com seu hábito preto absorvendo a pouca iluminação presente e criando um efeito fascinante, como se a entidade estivesse se desprendendo das sombras.
Mas sua aparição fica ainda mais perturbadora quando somada ao seu comportamento. Valak permanece imóvel por longos momentos, seguidos por movimentos incomuns, enquanto a maneira como aparece e desaparece em diferentes pontos do espaço faz com que pareça inadequada dentro de um corpo humano, como se não estivesse sujeita às mesmas regras físicas que os demais personagens.
A relação de Valak com o ambiente também é importante, uma vez que, em sua presença, o espaço religioso se torna fonte de desamparo. Crucifixos são virados de cabeça para baixo, algo que indica que o mal tomou o controle até mesmo daquilo que deveria servir como sua fraqueza. Isso cria um sentimento de “e agora?”, como se os espectadores estivessem completamente indefesos: afinal, se nem mesmo o deus que deveria estar presente nos elementos religiosos e nas orações conseguiu afastar aquele mal, então quem conseguirá?
Assim, quando Valak finalmente aparece, o filme não apresenta algo completamente novo ao espectador, mas concretiza visualmente aquilo que havia sido sugerido através de todos os elementos audiovisuais em conjunto. A entidade parece pertencer àquele ambiente porque sua aparência, seus movimentos e sua relação com os símbolos religiosos seguem os padrões que o filme havia estabelecido desde o início.
E depois... bem, o filme de terror mexe com nossa imaginação justamente ao nos fazer duvidar de cada espaço e som que vier a aparecer. Valak passa a existir mesmo quando não está em cena, porque o filme ensinou o espectador a enxergá-la nos elementos que compõem aquele espaço.
Pazuzu
Antes: como o filme prepara o espectador
Associado à antiga figura mesopotâmica de Pazuzu, relacionada ao vento, o demônio de O Exorcista (1973) é construído de maneira muito diferente de Valak. No prólogo ambientado no Iraque, o vento, os ruídos de escavação, os cães e os sons metálicos cuja origem nem sempre pode ser identificada já criam a sensação de que existe algo errado naquele espaço. O encontro de Merrin com o amuleto é acompanhado por um som semelhante a um zumbido, enquanto a descoberta da grande estátua é cercada por vento, animais e sons dissonantes. O espectador, portanto, escuta a ameaça antes de compreendê-la. Se em Valak o silêncio e o espaço preparam o público para procurar uma presença, em Pazuzu são os próprios sons que começam a anunciar que ela existe.
Essa sensação é reforçada pelos objetos e pela reação de Merrin, anunciando através de seu desconforto que há algo errado acontecendo. A estátua, especialmente, coloca o personagem diante de uma representação física daquilo que ele parece reconhecer como uma ameaça, enquanto sua própria reação funciona como uma confirmação para o público, transformando seu desconforto em uma forma de aviso. Até mesmo a distância entre o Iraque e a casa dos MacNeil ganha importância, porque aquilo que é descoberto no espaço arqueológico posteriormente se manifesta dentro de um ambiente completamente cotidiano. Pazuzu, dessa forma, não chega de repente à narrativa: ele é anunciado através de uma sequência de sinais que inicialmente parecem desconectados, mas que posteriormente revelam fazer parte da mesma ameaça.
Durante: como a entidade confirma os sinais
Quando Pazuzu finalmente passa a se manifestar através de Regan, o filme cria uma das suas rupturas mais perturbadoras: aquilo que vemos continua sendo uma menina, mas aquilo que ouvimos já não corresponde à identidade que havia sido estabelecida para ela. A voz demoníaca, construída através da combinação e distorção de diferentes sons, altera completamente a percepção daquele corpo. O som passa a contradizer a imagem, tornando-se o principal indício de que a entidade está presente em cena.
Essa presença também se confirma através do comportamento. Pazuzu não funciona apenas como uma força sobrenatural que provoca acontecimentos estranhos, mas como uma entidade capaz de falar, responder, provocar e utilizar informações pessoais para manipular aqueles ao seu redor. Portanto, apesar de aparecer visualmente em breves momentos, sua ameaça se deve principalmente à maneira como interfere conscientemente nas relações entre os personagens. Ao mesmo tempo, os sinais apresentados anteriormente começam a formar uma espécie de linguagem própria: o vento passa a carregar uma associação com a entidade, a estátua funciona como sua representação material, os ruídos continuam cada vez mais perturbadores e aquilo que parecia apenas atmosfera no início do filme passa a fazer parte da construção da entidade.
E é essa continuidade que faz Pazuzu ser tão instigante e integrado ao universo do filme, tornando-se ainda mais fascinante quando o expectador percebe que estava diante da mesma presença muito antes de saber exatamente o que estava procurando.
E depois, Pazuzu não apenas deixa uma casa marcada pelos acontecimentos como também permanece na possibilidade de que algo sobrenatural esteja escondido dentro de um contexto antes considerado normal e reconfortante.
Pennywise
Em IT (2017), dirigido por Andy Muschietti, Pennywise apresenta uma relação completamente diferente entre aparência e identidade. A entidade é uma figura sobrenatural capaz de mudar de forma e utilizar os medos individuais das crianças para criar diferentes manifestações de si mesma. O palhaço é sua aparência mais reconhecível, mas não representa necessariamente sua verdadeira forma: ele funciona como uma maneira de assumir uma figura humana, familiar e aparentemente acessível para se aproximar de suas vítimas. Essa característica faz com que Pennywise seja uma entidade especialmente interessante dentro da construção cinematográfica do terror porque, enquanto Valak é reconhecida por uma aparência extremamente específica e religiosa e Pazuzu é associado a determinados elementos sonoros e visuais, Pennywise pode ser reconhecido pela capacidade de deixar de ser aquilo que acabou de ser.
Antes: como o filme prepara o espectador
Antes mesmo de Pennywise aparecer, IT começa a transformar elementos cotidianos da infância em sinais de perigo. A chuva, a água, os bueiros, os esgotos e os desaparecimentos passam a estabelecer uma relação entre os espaços comuns de Derry e a presença da entidade. Isso fica especialmente evidente na sequência de Georgie, em que um simples barquinho de papel conduz a criança até um bueiro. O espaço que normalmente faria parte de uma brincadeira infantil se transforma em uma passagem para algo desconhecido. Ao mesmo tempo, o balão vermelho começa a funcionar como uma espécie de assinatura visual: quando ele surge, o espectador já associa aquele objeto à possibilidade de que a entidade esteja próxima. Diferentemente de Pazuzu, cuja presença é construída principalmente pelo som, Pennywise possui desde cedo um sinal visual extremamente reconhecível.
A própria maneira como Pennywise aborda Georgie também estabelece uma regra importante para as aparições seguintes. Antes de revelar sua natureza sobrenatural, ele conversa, sorri, brinca e tenta conquistar a confiança da criança. Existe uma tentativa de reproduzir uma interação humana normal, mas algo nela parece inadequado. Essa característica se torna ainda mais importante quando o filme começa a apresentar os medos individuais dos outros integrantes do Clube dos Otários. Cada criança possui uma experiência diferente com aquilo que a ameaça, e o espectador começa a perceber que Pennywise não é um palhaço o tempo todo, passando a desconfiar das pessoas que aparecem: é realmente aquele personagem ou é ele disfarçado para conseguir suas vítimas? Dessa forma, o filme prepara uma ideia fundamental sobre a entidade: ela não está presa a uma única aparência, porque sua manifestação depende de quem está diante dela.
Durante: como a entidade confirma os sinais
Quando Pennywise aparece como palhaço, o filme apresenta uma figura visual extremamente específica. A maquiagem, o cabelo, a roupa, os olhos, o sorriso e, principalmente, o balão vermelho formam uma combinação imediatamente reconhecível. Mas o que torna essa aparência realmente perturbadora não é apenas seu design, e sim a maneira como Pennywise se comporta dentro dele. Seus movimentos e sua atuação fazem com que se pareça uma figura humana o suficiente para atrair uma criança, mas inadequada o suficiente para fazer o espectador perceber que há algo escondido naquela aparência.
É, porém, quando Pennywise deixa de ser o palhaço que o filme apresentou que sua construção se torna ainda mais interessante. Para cada criança, a entidade pode assumir uma manifestação relacionada a um medo específico: Bill é confrontado pela imagem de Georgie, Eddie pela doença, Stanley pela figura deformada da pintura, Mike pelo incêndio e Richie por seus próprios medos. Assim, Pennywise confirma aquilo que havia sido preparado anteriormente: sua identidade não está presa à aparência do palhaço. Pelo contrário, sua característica mais importante é justamente a capacidade de adaptar sua aparência àquilo que cada vítima teme.
Isso cria uma espécie de contradição que define Pennywise: quanto mais ele muda, mais reconhecível se torna. O palhaço continua sendo sua imagem mais marcante não porque seja necessariamente sua verdadeira forma, mas porque é a aparência que concentra sua estratégia de aproximação. Ele utiliza uma figura familiar para esconder algo que não é humano e, depois, abandona essa forma para assumir aquilo que cada personagem já considera ameaçador. Enquanto Valak é reconhecida por manter uma aparência específica e Pazuzu pela repetição de sinais que anunciam sua presença, Pennywise é reconhecido justamente pela transformação.
E depois que desaparece de cena, Pennywise não deixa apenas um espaço contaminado ou uma realidade que passou a parecer suspeita. Ele deixa os próprios medos dos personagens expostos, de uma forma em que a ameaça não precisa permanecer diante da câmera para continuar existindo: ela passa a fazer parte da memória dos personagens e daquilo que eles aprenderam sobre seus próprios medos. E, ao estabelecer que esse confronto poderá voltar a fazer parte de suas vidas quando adultos, IT reforça que aquilo que aconteceu na infância não apenas desaparece. Algumas formas de medo continuam existindo mesmo depois que o monstro deixa de aparecer.
Conclusão
Uma conclusão, portanto, seria que cada entidade, quando analisada de perto, é formada pelas próprias regras que nos permitem antecipar sua forma de se manifestar e, consequentemente, também sua identidade. Seja zombando da religião, se disfarçando em situações cotidianas ou se infiltrando nos medos das crianças, cada uma apresenta uma assinatura própria, deixada não apenas visualmente por sua aparência, mas também através do som, da iluminação, da interferência no ambiente em que se manifesta e, talvez principalmente, em nossas memórias depois. Afinal, quem nunca terminou de assistir a um filme de terror, olhou para um canto e se perguntou se aquela entidade não estaria também ali...

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